Ficaram ali parados, olhando fixamente nos olhos um do outro. Nenhuma palavra, apenas olhares. Já passava das onze, a noite era fria e a situação não ajudava a ele. Um longo diálogo se seguiu durante o silêncio. Ele tentava fazê-la lembrar de todos os sorrisos e caretas alegres dela ao conversar com ele, como ele sabia quando ela estava sorrindo, mesmo que não estivessem próximos um do outro. Ela rebatia dizendo que o entendia, que acreditava que ele estava certo, mas ela tinha um alvo, um objetivo, e não queria mudar sua trajetória.
Com pesar ele fechou os olhos, encerrando aquele diálogo que nunca aconteceu realmente. "Minha vida nunca fará sentido", Pensou ele. Abriu novamente os olhos e encarou o chão, levantando poucas vezes os olhos para vislumbrar aquele rosto perfeito. Ela entendeu, oras, quem não entenderia um sinal tão claro de despedida. Ela então se aproximou dele, ele a olhou novamente nos olhos, e quando ela aproximou seu rosto do dele, deixando-o sem reação e com um sorriso bobo no canto da boca, ele apenas fechou os olhos e se estendeu também. Um beijo no rosto marcou a despedida, ele olhou novamente para o chão e então em seus olhos. O sorriso bobo deu espaço para um rosto sério e sem emoções. "Lembre-se, não fui eu quem virou", seus olhos disseram a ela, que respondeu sussurrando enquanto olhava para o chão. "Eu sei".
Ela virou as costas, subiu as escadas até a porta, tirou uma chave da bolsa, abriu a porta e entrou, sem sequer olhar para trás. Ele então se virou e saiu dali, encarando seu caminho. Ela ainda abriu de leve a cortina, apenas para vê-lo partir em silêncio. Ela então pegou o telefone e ligou para aquele que deixava seu coração sempre inquieto. "Por favor, venha me ver."
"Estou indo, levarei um vinho para nós." Disse a voz ao outro lado da linha. Que desligou o celular, saiu do banheiro e voltou para a mesa, pedindo em seguida a conta ao garçom. Em frente a ele estava uma garota, não muito diferente da que lhe acabara de pedir por uma visita. "O que faremos agora amor?" Disse a garota, sorrindo, ao mesmo tempo em que o garçom deixou a conta sobre a mesa e saiu. Ele então abriu a conta e respondeu: "Desculpe querida, aconteceu um problema no escritório, preciso ir urgente para lá, deixarei a conta paga e um dinheiro para seu taxi, me ligue amanhã". Sem que ela pudesse esboçar qualquer reação, ele abriu a carteira e jogou algum dinheiro sobre a mesa, partindo em seguida.
"Como posso ser tão idiota, como pude mais uma vez, perder alguém que em tão pouco tempo tomou tanto espaço em meu coração?" Disse o desolado, ainda olhando para o chão, seguindo o caminho de volta até sua casa. "Talvez eu não devesse ter apenas encarado-a, talvez se eu tivesse realmente dito algo, mas o que poderia eu dizer? Se seus olhos deixavam tão claro seu desejo". Murmurou, chutando as folhas em seu caminho.
"Não sei o que vestir, acho que colocarei algo mais ousado" Pensou ela, enquanto se arrumava em frente ao espelho, o desolado já não tinha sequer algum espaço em seu pensamento. Para ela, a noite perfeita estava por vir, a primeira noite com seu amado. Ele nunca deu muita atenção para ela, mas mesmo assim ela o escolheu, pois sabia o quanto ele era inteligente e justamente por isso era tão ocupado com seus negócios.
"Ele é tão perfeito, mas ao mesmo tempo é tão frio. Deixar o dinheiro assim, jogado sobre a mesa, quem ele pensa que é?" Ela pagou a conta e saiu para pegar um táxi, era tarde já, e não havia nenhum ali na frente, mas não seria um problema, pois ela conhecia um ponto de táxi que ficava a apenas três quadras dali. Para onde seguiu caminhando.
"Qual vinho eu deveria escolher para esta? Um doce e leve vinho branco ou um amargo e encorpado vinho tinto?" Pensava ele, enquanto dirigia até uma loja de bebidas 24hrs que ficava no caminho até a casa dela. "Não posso também esquecer das camisinhas, afinal, nunca se sabe". Um largo e traiçoeiro sorriso surgiu então.
"A culpa é minha, afinal, eu sempre soube que ela gostava de outro, e mesmo que ele não a tratasse como ela merecia, ainda seria melhor do que eu, pois assim sua imaginação lhe falava". Resmungou ele, rota finalmente entendendo porque sua tentativa de conquistá-la estava fadada ao fracasso. "Não irei embora de cabeça baixa, ao menos sei que tentei, que não desisti no primeiro obstáculo". Levantou então o rosto, vendo uma garota sair de um restaurante duas quadras a sua frente, seguindo a mesma direção que ele. O que o deixou um pouco preocupado, pois era tarde para uma garota andar sozinha na rua.
Ela entrou no banheiro para tomar um banho e vestir algo mais sensual antes que ele chegasse, mesmo sabendo que teria pouco tempo, lavou o cabelo, pois tinha medo que ele reconhecesse nela o perfume de outro homem. "Outro homem", sussurrou ela, enquanto pensava naquele que acabara de deixar, aquele que a fazia sorrir de forma simples e verdadeira, mas que não foi o suficiente para garantir um espaço em seu coração.
"O que querem? eu não tenho dinheiro". Disse ela aos dois homens que saíram rapidamente de um beco escuro e a cercaram, encarando-a e sorrindo. Seu coração quase parou, e seu rosto se contorceu em desespero quando um deles respondeu apenas apontando para seu corpo. "Por favor, não façam nada comigo, levem tudo então, mas por favor não façam nada comigo". Um deles puxou um canivete e disse a ela que se ela gritasse, ele cortaria sua língua. Ela começa a chorar já em desespero, um dos homens tampa sua boca com um pano umedecido em formo, ela cai e ambos começam a arrastá-la para o beco.
Estacionou em frente a loja, desceu e ao ver os vinhos, sua decisão foi rápida, pegou o mais barato. "Mais alguma coisa senhor?" lhe perguntou a vendedora, enquanto ele admirava seu decote. "Sim, claro, aquele pacote de camisinhas também por favor, não que eu tenha alguém, mas nunca se sabe quando precisarei, não é mesmo?" disse ele sorrindo sarcasticamente. A vendedora respondeu com um sorriso disfarçado, já estava acostumada a este tipo de clientela. Ele deixou então a loja e voltou para o carro, seguindo para aquela que se preparava para vê-lo.
"Mas o que diabos?" pensou ele ao ver dois homens saírem do beco e arrastarem uma mulher para dentro novamente. Pegou o celular rapidamente e ligou para a polícia, caiu em chamada de espera. Ainda com o celular no ouvido, correu até a entrada do beco, entrou furtivamente e ao fundo viu a mulher desmaiada, um dos homens está mexendo em sua bolsa enquanto o outro retira a meia calça dela e abaixa as próprias calças. "Preciso fazer algo".
A campainha toca, "deve ser ele", pensa ela enquanto desce correndo pelas escadas, quase tropeçando. Ela para em frente a porta, respira fundo, arruma o vestido e então atende a porta, é realmente ele, segurando um vinho em uma das mãos e com a outra mão na cintura.
Entre, disse ela envergonhada, mas assim que ele entra na casa, o sorriso que estava em seu rosto se esvai, dando lugar para uma feição triste e olhos carregados de lágrimas. "Da próxima vez que for enganar alguma trouxa, lembre-se de tomar um banho para tirar o perfume dela, e de não deixá-la beijar a gola de sua camiseta". Disse ela gaguejando, empurra o para o lado em seguida e sai correndo pela rua. "Preciso pedir desculpas a ele, não acredito que escolhi este canalha".
"Maldição", pensou ele, colocando a mão na testa e percebendo a cagada que acabara de fazer. Desceu as escadas da frente resmungando, entrou no carro e tentou ligar para aquela com quem jantava a pouco. "Não vou desperdiçar um vinho desses sozinho, preciso apenas pensar em alguma boa desculpa para tirá-la de casa novamente".
"Droga, ela será estuprada, mas, se eu tentar algo agora, eles me virão de longe, e eu não posso bater de frente com eles". Um celular toca dentro da bolsa, ecoando pelo beco. "Agora é a minha chance". Pensa ele, pegando um pedaço de madeira que estava no chão e correndo para cima dos dois distraídos. Ele acerta o primeiro na nuca com tanta força que a madeira quebra, jogando seu adversário contra o solo. O outro se vira, e quando o vê, tira um canivete do bolso. Ele salta sobre o bandido e ambos caem no chão.
"O apartamento dele não é longe, só espero que ele tenha ido para lá". Pensa ela, correndo já quase sem ar, quando vê dois homens deixando um beco correndo, um deles com a mão na nuca. Ela se aproxima calmamente, e ouve alguém gritando, é a voz de uma mulher. Ela corre até o fim do beco e vê a mulher ajoelhada diante de uma pessoa caída.
"Chame uma ambulância, rápido, ele tentou me ajudar, mas foi esfaqueado." Disse aquela que fora salva de ser violentada, mas quando acordou, viu apenas seu salvador caído enquanto seus agressores fugiam.
"É... é você querida?" Disse ele com dificuldade, já quase sem forças para respirar, tentando inutilmente levantar a cabeça ao ouvir a voz dela.
Ela se aproxima dele, e reconhece seu rosto, o rosto daquele que procurava. "O que aconteceu?" Disse ela com o rosto já cheio de lágrimas, ajoelhando-se ao lado daquela que segurava.
Com dificuldade ele dá um último respiro e responde:
"Minha vida agora faz sentido".
(V.B.)

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